A odontologia hospitalar vai muito além do cuidado com os dentes.
Para pacientes em tratamento contra o câncer, a saúde bucal pode interferir diretamente na experiência durante a quimioterapia, radioterapia ou transplante de medula. Nesse contexto, o cirurgião-dentista integra a equipe multidisciplinar, atuando na prevenção, no controle de complicações e na qualidade de vida do paciente.
Essa foi uma das principais reflexões do episódio do podcast PodSerCEMOI, que recebeu o cirurgião-dentista, patologista e professor Fábio Coracin para uma conversa sobre carreira, ciência, odontologia hospitalar no tratamento oncológico e sua própria experiência como paciente oncológico.
Sua trajetória ajuda a compreender uma questão essencial: cuidar do paciente não significa olhar apenas para a doença, mas para a pessoa que está vivendo aquele tratamento.
Da odontologia à oncologia
Quando entrou na faculdade de Odontologia, Fábio imaginava seguir pela Ortodontia. Durante a graduação, porém, uma professora de Patologia apresentou a ele uma perspectiva diferente: a possibilidade de compreender a doença para além do dente.
A partir daí, vieram a Patologia, a Periodontia e a aproximação com a Hematologia e a Oncologia.
Sua formação passou a ser construída de maneira interdisciplinar, aprofundando conhecimentos sobre doenças e tratamentos que impactam diretamente a saúde bucal.
Essa trajetória foi fundamental para sua atuação junto a pacientes oncológicos.
Como destaca na conversa, para trabalhar nesse contexto, o dentista precisa compreender não apenas a cavidade oral, mas também a doença sistêmica, os protocolos de tratamento e seus possíveis efeitos.
Não basta conhecer a boca. É preciso conhecer o paciente.
Qual é o papel do dentista no tratamento do câncer?
O cirurgião-dentista pode atuar desde a preparação do paciente para o tratamento oncológico até o acompanhamento das manifestações decorrentes da terapia.
Entre suas funções estão a identificação e remoção de possíveis focos de infecção, o acompanhamento da saúde bucal e o manejo de complicações relacionadas ao tratamento.
Para isso, é necessário conhecer os diferentes protocolos terapêuticos e seus impactos.
Fábio ressalta que o profissional precisa entender quais tratamentos podem apresentar maior toxicidade para a cavidade oral e estar preparado para acompanhar essas manifestações.
Essa integração entre Odontologia, Medicina e outras áreas da saúde é fundamental para uma assistência verdadeiramente multidisciplinar.
Mucosite oral: muito mais do que uma ferida na boca
Um dos temas de destaque do episódio é a mucosite oral, uma complicação que pode ocorrer durante determinados tratamentos oncológicos.
Mais do que uma lesão visível, a mucosite pode provocar dor intensa e comprometer atividades básicas do paciente.
E Fábio conhece essa experiência dos dois lados: como profissional e como paciente.
Durante seu próprio tratamento, ele vivenciou mucosite e relata que a dor na garganta e na borda da língua foi uma das partes mais difíceis de enfrentar.
Essa experiência trouxe uma nova dimensão para um conhecimento que ele já possuía profissionalmente.
Agora, ele também sabia o que significava sentir aquela dor.
O laser de baixa potência pode ajudar no controle da mucosite?
Durante o podcast, Fábio também fala sobre o uso do laser de baixa potência no manejo da mucosite oral.
A conversa destaca que a laserterapia pode fazer parte das estratégias utilizadas para minimizar os efeitos dessa complicação, mas não deve ser vista de maneira isolada.
O cuidado envolve um conjunto de medidas, acompanhamento odontológico, higiene oral e indicação adequada da terapia.
Por isso, a atuação do dentista deve estar integrada à equipe responsável pelo tratamento do paciente.
O paciente precisa saber que a odontologia pode fazer parte do tratamento
Um dos pontos mais importantes levantados no episódio é a necessidade de ampliar a informação sobre a participação da Odontologia Hospitalar no tratamento oncológico.
Muitos pacientes e familiares ainda não sabem que o cirurgião-dentista pode contribuir para prevenir e controlar complicações bucais durante a terapia.
Fábio destaca justamente a importância de levar esse conhecimento para além dos profissionais especializados, fazendo com que a população também saiba que existem estratégias capazes de minimizar o sofrimento provocado pela mucosite.
Isso nos leva a uma pergunta importante:
Em que momento o dentista deve fazer parte do cuidado do paciente oncológico?
A experiência discutida no podcast reforça a importância de uma atuação planejada e integrada desde o diagnóstico e antes do início do tratamento.
Quando o especialista se torna paciente
Talvez o momento mais marcante da conversa seja quando Fábio compartilha sua própria história.
Depois de anos estudando e tratando pacientes com doenças onco-hematológicas, ele recebeu o diagnóstico de um linfoma.
A investigação começou após perceber um sintoma incomum: respirar passou a doer. O exame revelou uma massa no mediastino.
A partir daquele momento, o conhecimento que durante anos havia sido utilizado para cuidar de outras pessoas passou a fazer parte de sua própria experiência.
Vieram quimioterapia, radioterapia e os efeitos do tratamento.
Fábio passou por mucosite, diarreia, desmaios e neutropenia febril. Ainda assim, afirma que seu objetivo estava claro: a cura.
E foi também nesse período que ele experimentou, na prática, o cuidado odontológico que durante tantos anos ensinou.
Como profissional, conhecia as estratégias. Como paciente, sentiu seus efeitos.
Essa experiência reforçou uma dimensão essencial da Odontologia hospitalar: conhecimento técnico precisa caminhar junto com escuta, acolhimento e humanidade.
A odontologia hospitalar precisa olhar para a pessoa
A conversa também aborda o fortalecimento da Odontologia hospitalar.
Mais do que criar protocolos e processos, é necessário manter o paciente no centro da assistência.
A história da especialidade é construída por profissionais que ajudaram a consolidar sua presença no ambiente hospitalar e defenderam uma odontologia voltada ao cuidado integral das pessoas.
Esse talvez seja um dos maiores aprendizados da trajetória de Fábio: não é apenas sobre tratar manifestações bucais. É sobre contribuir para que o paciente atravesse o tratamento de forma mais segura, integrada e humana.
Ciência, formação e troca de conhecimento
A trajetória de Fábio também mostra a importância da formação continuada e da troca entre profissionais.
Entre suas experiências está um período de observação no Memorial, em Nova York, onde apresentou resultados brasileiros relacionados à laserterapia para mucosite.
A experiência internacional reforçou, segundo seu relato, a percepção de que profissionais brasileiros desenvolvem trabalhos de excelência e que a troca de conhecimento precisa acontecer em diferentes direções.
Aprender, compartilhar e questionar fazem parte da evolução da especialidade.
O conhecimento só ganha sentido quando melhora a vida de alguém
A história de Fábio Corain é uma história de carreira, ciência e formação, mas também de experiência humana.
Depois de anos cuidando de pacientes, ele passou a viver a realidade de quem está do outro lado do tratamento.
Sua trajetória mostra a importância da Odontologia hospitalar dentro do cuidado multidisciplinar e reforça o papel do cirurgião-dentista na prevenção e no controle das complicações orais do tratamento oncológico.
Mas talvez a principal mensagem do episódio seja ainda mais simples: por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa.
E cuidar dessa pessoa exige conhecimento, integração, experiência e humanidade.