O tubo orotraqueal é um dos dispositivos mais importantes na terapia intensiva. Responsável por garantir a permeabilidade das vias aéreas e possibilitar a ventilação mecânica, ele desempenha um papel decisivo na manutenção da vida de pacientes críticos.
No entanto, quando seu posicionamento e seus efeitos sobre a cavidade oral não são monitorados de forma sistemática, esse mesmo dispositivo pode provocar complicações importantes, como as lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos (Medical Device-Related Pressure Injury – MDRPI).
Mais do que uma lesão localizada, essas alterações podem aumentar significativamente o risco de infecções hospitalares e comprometer a recuperação clínica do paciente.
Neste artigo, você entenderá:
- Como o tubo orotraqueal pode causar lesões na boca;
- Por que essas lesões representam um risco sistêmico;
- Qual é a relação entre biofilme oral e pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV);
- Como a atuação diária do cirurgião-dentista contribui para a segurança do paciente na UTI.
Como o tubo orotraqueal pode causar lesões na cavidade oral?
Durante a internação em terapia intensiva, o tubo orotraqueal permanece em contato contínuo com a mucosa oral.
Esse contato prolongado, associado a fatores como:
- pressão constante;
- fricção;
- cisalhamento;
- umidade;
- limitação da mobilidade do paciente;
- compromete a microcirculação dos tecidos.
Como consequência, ocorre diminuição da perfusão sanguínea local, evoluindo para:
- hiperemia;
- isquemia;
- necrose;
- ulceração.
O resultado é uma lesão por pressão relacionada a dispositivo médico (MDRPI), frequentemente subdiagnosticada nas Unidades de Terapia Intensiva.
Caso clínico: lesão por pressão provocada pelo tubo orotraqueal

Imagem 1 – Posicionamento do tubo orotraqueal sobre o lábio superior, evidenciando o potencial de compressão dos tecidos moles.


Imagens 2 e 3 – Lesão por pressão em lábio superior causada pelo contato prolongado do tubo orotraqueal.
Observa-se uma área ulcerada com sinais de necrose e comprometimento tecidual decorrente da pressão contínua exercida pelo dispositivo.
As imagens ilustram uma complicação evitável quando há monitoramento frequente da cavidade oral e reposicionamento periódico do dispositivo.
O maior problema não é apenas a úlcera
Embora a lesão em si seja preocupante, o maior risco está na alteração da microbiota oral que ocorre durante a internação.
Após aproximadamente 48 horas de hospitalização, acontece uma importante mudança no perfil epidemiológico do biofilme oral.
Enquanto inicialmente predominam bactérias Gram-positivas, o ambiente bucal passa a ser colonizado principalmente por bacilos Gram-negativos, microrganismos frequentemente associados às infecções relacionadas à assistência à saúde.
Entre elas destaca-se a Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAV).
Quando existe uma úlcera na mucosa oral, essa lesão passa a funcionar como:
- porta de entrada para microrganismos;
- reservatório bacteriano;
- potencial foco para disseminação sistêmica.
Em pacientes críticos, isso representa um fator adicional para aumento da morbidade, prolongamento da internação e piora do prognóstico clínico.
O papel do cirurgião-dentista na prevenção das lesões causadas pelo tubo orotraqueal
É justamente nesse cenário que a presença do cirurgião-dentista hospitalar deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade assistencial baseada em evidências.
A avaliação odontológica diária permite:
Identificação precoce de áreas de risco
Antes mesmo da formação da úlcera, é possível detectar sinais iniciais como hiperemia e pontos de pressão.
Essa identificação precoce permite intervenções imediatas.
Reposicionamento do tubo orotraqueal
O acompanhamento odontológico auxilia a equipe multiprofissional na orientação sobre mudanças periódicas da posição do tubo, reduzindo a pressão contínua sobre uma mesma região.
Controle do biofilme oral
A remoção adequada do biofilme diminui a carga microbiana da cavidade oral e reduz o risco de colonização por patógenos hospitalares.
Terapias adjuvantes
Quando indicado, recursos como a fotobiomodulação podem acelerar o processo de reparo tecidual, reduzir inflamação e aliviar o desconforto local.
Atuação integrada com a equipe multiprofissional
O cirurgião-dentista participa da prevenção de complicações locais e sistêmicas em conjunto com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais da terapia intensiva.
Benefícios da avaliação odontológica diária na UTI
A presença diária do cirurgião-dentista proporciona benefícios que vão além da saúde bucal.
Entre eles destacam-se:
- preservação da integridade da mucosa oral;
- prevenção de lesões por pressão relacionadas ao tubo orotraqueal;
- redução da carga microbiana da cavidade oral;
- diminuição do risco de pneumonia associada à ventilação mecânica;
- menor ocorrência de infecções hospitalares;
- favorecimento da recuperação clínica;
- aumento da segurança do paciente crítico.
O que dizem as evidências científicas?
As recomendações atuais são respaldadas por importantes diretrizes internacionais e por estudos científicos publicados em bases como o PubMed.
As evidências demonstram que:
- a avaliação sistemática da cavidade oral reduz complicações relacionadas aos dispositivos médicos;
- o monitoramento frequente permite identificar precocemente áreas de pressão;
- protocolos de higiene oral contribuem para reduzir a incidência de PAV;
- a participação ativa do cirurgião-dentista melhora os desfechos clínicos de pacientes críticos.
Essas recomendações são reforçadas pelas diretrizes da European Pressure Ulcer Advisory Panel (EPUAP), da National Pressure Injury Advisory Panel (NPIAP) e da Pan Pacific Pressure Injury Alliance (PPPIA), que destacam a prevenção das lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos como parte essencial da segurança do paciente.
Conclusão
O tubo orotraqueal continua sendo um recurso indispensável para salvar vidas na terapia intensiva. Entretanto, seu uso exige vigilância contínua para evitar complicações potencialmente graves.
Lesões por pressão na cavidade oral não representam apenas um problema local: elas podem favorecer infecções, aumentar o risco de pneumonia associada à ventilação mecânica e impactar negativamente a evolução clínica do paciente.
Por isso, a avaliação odontológica diária deve ser entendida como uma estratégia assistencial baseada em evidências, capaz de prevenir lesões, controlar o biofilme oral, reduzir infecções e promover um cuidado verdadeiramente integral ao paciente crítico.
Na UTI, cuidar da boca é cuidar da vida.
Quer atuar com segurança na Odontologia Hospitalar?
A atuação do cirurgião-dentista em Unidades de Terapia Intensiva exige conhecimento técnico, domínio de protocolos assistenciais e integração com equipes multiprofissionais. Prevenir lesões relacionadas ao tubo orotraqueal, controlar o biofilme oral e contribuir para a redução de infecções hospitalares são competências fundamentais para quem deseja atuar na assistência ao paciente crítico.
Se você busca uma formação completa, baseada em evidências científicas e voltada para a prática clínica hospitalar, conheça a Especialização em Odontologia Hospitalar do CEMOI.
Transforme conhecimento em cuidado e esteja preparado para fazer a diferença na vida de pacientes que mais precisam.
FAQ – Perguntas frequentes
O que é o tubo orotraqueal?
O tubo orotraqueal é um dispositivo inserido pela boca até a traqueia para manter a via aérea aberta e permitir a ventilação mecânica em pacientes que necessitam de suporte respiratório.
O tubo orotraqueal pode causar lesões?
Sim. O contato prolongado com a mucosa oral pode provocar lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos (MDRPI), especialmente quando não há reposicionamento periódico e monitoramento da cavidade oral.
Por que a higiene oral é importante em pacientes intubados?
Após cerca de 48 horas de internação, ocorre alteração da microbiota oral, favorecendo a colonização por bactérias associadas às infecções hospitalares. O controle do biofilme reduz esse risco.
Qual é a função do cirurgião-dentista na UTI?
O cirurgião-dentista realiza avaliação diária da cavidade oral, previne lesões por pressão, orienta o reposicionamento do tubo orotraqueal, controla o biofilme oral e contribui para reduzir complicações como a pneumonia associada à ventilação mecânica.