Pacientes candidatos a transplantes de órgãos sólidos ou transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH) apresentam um risco elevado de complicações infecciosas, especialmente no período pré e pós-operatório imediato. A imunossupressão necessária para o sucesso do enxerto torna qualquer foco infeccioso ativo uma ameaça direta à sobrevida do paciente e do órgão transplantado.
Nesse contexto, é essencial o papel da avaliação de um profissional da Odontologia Hospitalar no pré-transplante, atuando na busca ativa diária, no diagnóstico precoce e na remoção de focos infecciosos de origem odontogênica, frequentemente subdiagnosticados quando não há integração efetiva da equipe odontológica ao cuidado hospitalar.
Odontologia Hospitalar no Pré-Transplante: Relato do Caso Clínico
O caso clínico apresentado refere-se a um paciente internado em unidade hospitalar, com histórico de doença sistêmica grave e indicação cirúrgica de alta complexidade, incluindo preparo para transplante. Ao exame clínico intraoral, observou-se condição bucal comprometida, com dentes remanescentes em estado avançado de destruição coronária, sinais de infecção ativa e inflamação de tecidos moles.
A avaliação por tomografia computadorizada, com ênfase na reformatação oblíqua em 3D, revelou a presença de foco infeccioso odontogênico com comprometimento ósseo significativo, extensão para estruturas adjacentes e potencial comunicação com seios paranasais — achados que não seriam plenamente identificados por métodos radiográficos convencionais.
A partir desses achados, foi indicada e realizada a remoção do foco infeccioso, com controle local rigoroso, redução da carga bacteriana e estabilização da condição bucal antes do procedimento cirúrgico de transplante.
Focos Infecciosos Odontogênicos e Risco Sistêmico
Infecções odontogênicas crônicas ou agudas podem atuar como reservatórios bacterianos, favorecendo episódios de bacteremia, sepse e falência do enxerto, especialmente em pacientes imunossuprimidos. Estudos demonstram que infecções bucais não tratadas estão associadas a aumento da morbimortalidade em pacientes transplantados, além de atrasos ou contra indicações temporárias ao procedimento cirúrgico, por isso é fundamental a atuação da Odontologia Hospitalar no pré-transplante.
A remoção de focos infecciosos antes do transplante reduz significativamente o risco de:
- Infecções sistêmicas no pós-operatório
- Pneumonia associada à ventilação mecânica
- Endocardite infecciosa
- Perda do enxerto
- Internações prolongadas em UTI
Busca ativa diária em UTI: um diferencial da Odontologia Hospitalar
A busca ativa diária da equipe de Odontologia Hospitalar em unidades de terapia intensiva permite diagnóstico precoce e intervenção no momento adequado.
Essa atuação contínua inclui:
- Identificação precoce de infecções oportunistas
- Monitoramento contínuo da cavidade oral
- Intervenção no momento adequado, evitando agravamento sistêmico
- Atuação preventiva, e não apenas reativa
Essa abordagem é fundamental em ambientes de terapia intensiva e em pacientes em preparo pré-transplante, nos quais a evolução clínica pode ser rápida e silenciosa.
Tomografia Computadorizada e Reformatação Oblíqua em 3D: Um Diferencial Diagnóstico
Embora ainda subutilizada pela Odontologia no ambiente hospitalar, a tomografia computadorizada representa um recurso diagnóstico de alto valor. A reformatação oblíqua em 3D possibilita:
- Avaliação precisa da extensão de lesões infecciosas
- Identificação de comprometimento ósseo profundo
- Planejamento cirúrgico mais seguro
- Comunicação efetiva com a equipe médica
O domínio dessa ferramenta amplia significativamente a capacidade diagnóstica do cirurgião-dentista hospitalar e fortalece sua atuação dentro da equipe multiprofissional.
Considerações Finais
A Odontologia Hospitalar no pré-transplante é parte indissociável do cuidado ao paciente. A remoção de focos infecciosos odontogênicos no período pré-operatório não é apenas uma conduta odontológica, mas uma estratégia de segurança do paciente, com impacto direto na redução de complicações infecciosas, no sucesso do transplante e na sobrevida.
Casos como o apresentado reforçam a necessidade de:
- Inserção efetiva do cirurgião-dentista nas equipes hospitalares
- Capacitação em diagnóstico por imagem avançado
- Protocolos claros de avaliação odontológica pré-transplante
CEMOI: formação em Odontologia Hospitalar baseada em evidência
O CEMOI – Centro de Ensino em Odontologia Hospitalar e Intensiva forma cirurgiões-dentistas capacitados para atuar em:
- Odontologia Hospitalar
- Odontologia em UTI
- Avaliação odontológica pré-transplante
- Diagnóstico por imagem avançado
- Segurança do paciente hospitalar
A Odontologia Hospitalar não é opcional.
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Referências:
- Elad S, Raber-Durlacher JE, Brennan MT, et al. Basic oral care for hematology-oncology patients and hematopoietic stem cell transplantation recipients. Oral Oncology. 2015;51(6):491-498.
- Schmalz G, Ziebolz D. Oral health in patients undergoing organ transplantation. International Dental Journal. 2019;69(5):321-330.
- Pizzo G, Scardina GA, Pizzo I, Giuliana G. Oral health and transplant patients. Transplantation Proceedings. 2011;43(4):1034-1036.
- Lockhart PB, Brennan MT, Sasser HC, et al. Bacteremia associated with toothbrushing and dental extraction. Circulation. 2008;117(24):3118-3125.